Após cinco dias de julgamento, o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) condenou à prisão, em regime fechado, os primeiros réus ligados ao Massacre do Compaj, ocorrido em 1º de janeiro de 2017, no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus. Os condenados foram identificados como Anderson Silva do Nascimento e Geymison Marques de Oliveira. A dosimetria das penas será divulgada ainda nesta semana.

Após massacre, polícia indiciou 210 pessoas – Foto: Reprodução
O julgamento, realizado na 2ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Manaus, foi considerado um dos mais longos e complexos da história do tribunal. Mais de 100 profissionais estiveram envolvidos, incluindo magistrados, promotores, defensores públicos, advogados, oficiais de Justiça, jurados e equipes de apoio. Durante todo o período, a sessão contou com policiamento reforçado, equipe médica de plantão, bombeiros militares e ambulâncias à disposição, garantindo segurança e suporte logístico aos participantes.
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O Massacre do Compaj deixou 56 mortos e teve início quando presos da facção Família do Norte (FDN) invadiram a ala de detentos ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), após o rompimento da aliança entre as facções, que disputavam o controle do tráfico de drogas na região. Durante a rebelião, que durou 17 horas, houve homicídios, esquartejamentos, decapitações e incêndios, além da fuga de 112 presos, dos quais cerca de 40 foram recapturados.
Além dos homicídios, os réus responderão por um homicídio tentado, 45 vilipêndios de cadáveres, tortura e participação em organização criminosa. Anderson Silva já estava preso e participou presencialmente do julgamento, enquanto Geymison Marques respondeu por videoconferência devido a ameaças de morte recebidas.
Este é apenas o primeiro de 22 processos relacionados ao massacre, considerado o segundo maior do Brasil em número de vítimas, ficando atrás apenas do episódio do Carandiru. Os demais processos deverão ser pautados pela 2ª Vara do Tribunal do Júri ao longo de 2026, prometendo mais desdobramentos sobre a maior tragédia da história penitenciária do Amazonas.
Repercussão internacional

Foto: Reprodução
A selvageria da rebelião que deixou ao menos 60 detidos mortos – decapitados e mutilados – no Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim), em Manaus, foi notícia no mundo inteiro. As críticas ao sistema penitenciário brasileiro são uma constante nos textos dos jornais estrangeiros. As informações são da Rádio França Internacional.
A reportagem do jornal italiano La Reppublica, assinada pelo correspondente Daniele Mastrogiacomo, começa descrevendo como se iniciou a rebelião “no coração da floresta amazônica”: “Alguns presos dominaram os guardas nos corredores e os amarraram. Outros reviraram as celas e o refeitório, pegando todas as armas que podiam encontrar: pistolas, fuzis, facas, pás e barras de ferro”. E completa: “Foram 17 horas de horror e violência”.
Segundo a publicação, o presídio, o maior de Manaus, é considerado um dos mais duros do Brasil. “As condições de vida dos presos são desumanas”, escreve.
O jornal francês Le Monde diz que, durante as negociações, os prisioneiros não exigiram praticamente nada, “apenas que não houvesse excesso por parte da polícia quando entrasse no local”. “Achamos que eles já tinham conseguido o que eles queriam, matar os membros da organização rival”, disse Sergio Fontes, secretário de Segurança Pública do Amazonas.
Segundo o diário, “as rebeliões são frequentes nas prisões do Brasil, cuja superlotação é regularmente denunciada por organizações de defesa dos direitos humanos”.
O jornal espanhol El País lembra que a Região Norte é fundamental para o tráfico internacional de drogas, pois as principais rotas de venda passam por lá. “O Amazonas faz fronteira com grandes países produtores de cocaína, como Peru, Colômbia e Venezuela. Por isso, o controle das prisões locais estabelece o poder sobre essa atividade”, escreve.
Já o texto do diário inglês The Guardian destaca que um vídeo publicado no site do jornal brasileiro Em Tempo mostra dezenas de cadáveres sangrentos e mutilados, amontoados no chão da prisão. O artigo classifica as condições nos presídios brasileiros de “terríveis”.
Relembre o ‘Massacre do Compaj’ em Manaus (AM)
Antes de 2017 – Contexto do Sistema Prisional do Amazonas

Garrote, ao fundo de boné vermelho: o Xerife do massacre no Compaj (Rede Social/Reprodução)
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O Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) enfrentava problemas crônicos de superlotação, falta de segurança e rivalidade entre facções.
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As principais facções eram a Família do Norte (FDN), que dominava o norte do país, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), de origem paulista, com presença crescente na região.
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A aliança temporária entre FDN e Comando Vermelho (CV) ajudava a controlar o tráfico, mas o rompimento dessa parceria aumentou tensões internas.
1º de janeiro de 2017 – Início do Massacre
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A rebelião começou quando detentos da FDN invadiram a ala ocupada por presos ligados ao PCC.
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O conflito durou aproximadamente 17 horas, causando mortes violentas: homicídios, decapitações, esquartejamentos e incêndios nas celas.
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112 presos fugiram durante o motim; cerca de 40 foram recapturados.
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O massacre foi alimentado pela disputa pelo controle do tráfico de drogas no Amazonas e na região Norte.
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Autoridades afirmaram que o ataque não foi planejado previamente, mas houve indícios de ligação com motim no Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), horas antes, com fuga de 87 presos.

Familiares de presos reunidos em frente a cadeia após a rebelião – Foto: Reprodução
2017 a 2019 – Consequências imediatas
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O governo do Amazonas decidiu não renovar o contrato da empresa gestora do Compaj, repassando a administração a outra terceirizada.
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Em 2019, uma nova rebelião deixou 15 mortos, evidenciando a persistência da violência no sistema prisional.
9 a 13 de dezembro de 2025 – Julgamento dos primeiros réus
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Anderson Silva do Nascimento e Geymison Marques de Oliveira foram os primeiros réus julgados pelo 2º Tribunal do Júri de Manaus.
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O julgamento durou cinco dias e envolveu mais de 100 profissionais, incluindo juízes, promotores, defensores, policiais, bombeiros e equipe médica.
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A sessão adotou inovações logísticas e técnicas, como quesitação em bloco, placas de sinalização e urnas de coleta de votos, para lidar com o grande número de crimes e vítimas.
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Anderson Silva participou presencialmente; Geymison Marques participou por videoconferência devido a ameaças de morte.
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Ambos foram condenados em regime fechado pelos seguintes crimes:
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56 homicídios consumados
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1 homicídio tentado
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45 vilipêndios de cadáveres
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1 crime de tortura
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Participação em organização criminosa
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14 de dezembro de 2025 – Divulgação da sentença
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O TJAM ainda deve publicar a dosimetria das penas dos réus.
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Este é apenas o primeiro de 22 processos relacionados ao massacre, com os demais julgamentos previstos para 2026.
Impactos e legado
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O Massacre do Compaj é considerado o segundo maior massacre em presídios do Brasil, atrás apenas do Carandiru, em número de vítimas.
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O episódio expôs falhas graves na segurança do sistema prisional, a força das facções criminosas e a dificuldade das autoridades em manter a ordem em unidades superlotadas.
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Os processos judiciais ainda em andamento visam responsabilizar os envolvidos e esclarecer falhas administrativas e de segurança que permitiram a tragédia.

Pós rebelião: os detentos foram reunidos na quadra para que a policia fizesse revista e colocasse o complexo em ordem – Foto: Reprodução
Nem todos os presos que fugiram durante o Massacre do Compaj foram recapturados
112 detentos fugiram do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) durante a rebelião de 1º a 2 de janeiro de 2017, e 72 fugiram do Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), totalizando 184 foragidos.
Dados oficiais divulgados poucos dias depois dos fatos:
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Até o início de 4 de janeiro de 2017, 56 dos 184 fugitivos foram recapturados pela polícia.
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Em uma atualização posterior, apenas cerca de 70 presos haviam sido recapturados em meio às buscas intensas — ou seja, mais de 100 foragidos ainda permaneciam sem localização.
Portanto, os 72 presos que fugiram do Ipat não foram todos recapturados, e muitos dos detentos que escaparam naquele momento seguiram foragidos durante o período das investigações e buscas.
