Cultura

São Paulo

Prefeito de São Paulo intensifica embate com grupos culturais. Críticas a pautas ideológicas motivam ofensiva

Cancelamentos, despejos e troca de gestores acirram tensão entre Ricardo Nunes e artistas da capital.


Prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB) – Foto: Reprodução

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), tem adotado medidas cada vez mais duras contra organizações culturais identificadas com pautas progressistas e de esquerda. A gestão municipal vem sendo marcada por cortes de contratos, ações de despejo e uma guinada ideológica que tem causado forte reação do meio artístico da capital.

A ofensiva mais recente envolve o cancelamento da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), além da rescisão do contrato com a Organização Social Sustenidos, responsável pela administração da Fundação Theatro Municipal. Segundo a prefeitura, a medida se baseia tanto em irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas quanto em uma insatisfação com o teor ideológico das apresentações culturais.

Continua depois da Publicidade

A situação ganhou visibilidade após a recusa da Sustenidos em demitir um funcionário que publicou conteúdo considerado ofensivo relacionado à morte do comentarista conservador Charlie Kirk. A pressão partiu de vereadores aliados ao bolsonarismo e do movimento Artistas Livres, ligado ao cineasta Josias Teófilo.

Outro foco de conflito é o Teatro de Contêiner Mungunzá, que recebeu ordem de despejo da prefeitura, sob o argumento de que o terreno será destinado a moradias populares na região da antiga Cracolândia. Apesar de uma liminar favorável ao grupo artístico, o Tribunal de Justiça autorizou a desocupação do espaço em até 90 dias.

Em nota, a prefeitura afirmou ter oferecido quatro áreas alternativas ao grupo, além de destinar R$ 2,5 milhões em apoio às atividades. No entanto, os representantes do teatro alegam que a proposta não contempla a dimensão e a infraestrutura necessárias para manter os projetos em funcionamento.

A classe artística tem reagido com mobilizações e campanhas. Um abaixo-assinado em defesa da permanência da Sustenidos na gestão do Theatro Municipal já reúne mais de 13 mil assinaturas. Um vídeo de apoio ao trabalho da OS, com participação de artistas como Gregório Duvivier, Camila Pitanga e Denise Fraga, também foi divulgado nas redes sociais.

“Totó Parente (foto) não tem condições mínimas de ocupar o cargo”, diz Marcos Felipe, do Teatro de Contêiner

Para Marcos Felipe, do Teatro de Contêiner, o problema não está apenas nas decisões do prefeito, mas na condução da Secretaria Municipal de Cultura. “O prefeito está sendo mal assessorado. O Totó Parente [atual secretário] não tem condições mínimas de ocupar o cargo. É possível conciliar as demandas artísticas com uma gestão de centro-direita, mas falta vontade política”, afirma.

Independentemente das negociações em andamento, o fato é que grupos culturais com forte identidade progressista e alinhamento com pautas identitárias enfrentam um ambiente cada vez mais hostil na capital paulista. A disputa entre arte e política, longe de ser nova, ganha novos capítulos com o avanço da gestão Nunes.