
União Europeia atravessa negociação entre Brasil, China e EUA, oferece a melhor oferta para refino de minerais críticos e abre guerra comercial que tende a ser vantajosa para o Brasil • Foto: Reprodução
O Brasil está diante de uma questão estratégica que vai muito além da exploração mineral: quem vai controlar a riqueza escondida no subsolo brasileiro e, principalmente, quem ficará com os maiores benefícios econômicos gerados por ela?
Detentor da segunda maior reserva mundial de terras raras, estimada em aproximadamente 21 milhões de toneladas, atrás apenas da China, o país tornou-se alvo de grandes grupos internacionais interessados em garantir o acesso a minerais fundamentais para a fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, semicondutores, tecnologias de defesa e sistemas de alta tecnologia.
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O problema não está simplesmente na presença de empresas estrangeiras no setor mineral. O debate envolve a capacidade do Brasil de controlar estrategicamente seus recursos, desenvolver tecnologia própria, industrializar a produção e garantir que uma parcela significativa da riqueza gerada permaneça em território nacional.
Um dos episódios que colocou essa discussão no centro do debate econômico foi a venda da Serra Verde, em Goiás, única produtora comercial de terras raras do Brasil, para a norte-americana USA Rare Earth, em uma operação anunciada por aproximadamente US$ 2,8 bilhões.
A negociação chamou atenção porque a empresa adquirente conta com participação minoritária do governo dos Estados Unidos, país que busca reduzir sua dependência da China no fornecimento de minerais estratégicos.
Venda de ativos estratégicos e ausência de intervenção federal
A operação da Serra Verde expôs uma fragilidade na política mineral brasileira: embora os recursos minerais pertençam à União, empresas privadas podem deter direitos de exploração e ser negociadas no mercado, inclusive com a transferência de controle societário para investidores estrangeiros, observadas as regras legais.
Em agosto de 2026, a CNN Brasil informou que o governo federal havia descartado intervir para impedir a venda da Serra Verde. A avaliação predominante no Executivo era de que uma intervenção em uma operação societária em andamento poderia gerar insegurança jurídica e prejudicar a atração de investimentos.

Imagem mostra projeto Serra Verde • Foto: Divulgação/Serra Verde
Parte do governo defendia uma atuação mais firme para proteger o interesse nacional. O entendimento, entretanto, não prevaleceu naquele momento. A discussão passou a se concentrar em alternativas como exigir processamento dos minerais no Brasil, estabelecer contrapartidas e estudar mecanismos de tributação das exportações de produtos com baixo nível de beneficiamento.
O episódio demonstra a diferença entre a propriedade constitucional dos recursos minerais e o controle econômico das empresas que recebem autorização para explorá-los. O subsolo pertence à União, mas isso não significa que toda negociação envolvendo uma mineradora privada dependa de autorização política específica do governo federal.
A dimensão internacional dessa disputa também aparece nos números levantados por uma investigação da Repórter Brasil em parceria com a Associated Press, publicada em agosto de 2026.
Dos 2.727 requerimentos de pesquisa mineral relacionados às terras raras registrados até junho daquele ano, 42% estavam ligados a empresas sediadas no exterior ou a subsidiárias de grupos estrangeiros. Austrália, Estados Unidos e Canadá aparecem entre os principais países de origem desses investidores.
A investigação também identificou que empresas ligadas ao capital estrangeiro controlavam 31 dos 45 processos mais avançados, entre projetos em operação e em fase de pré-operação comercial.
Esses dados não significam que todas as reservas brasileiras estejam sendo vendidas ou que toda a produção esteja sendo exportada. Revelam, porém, a crescente presença de interesses estrangeiros em uma cadeia produtiva que pode se tornar decisiva para a economia e a segurança tecnológica das próximas décadas.
O que o Brasil perde ao exportar matéria-prima
A principal preocupação econômica está na diferença entre vender o mineral extraído do solo e comercializar os produtos industrializados a partir dele.
As terras raras não são utilizadas apenas em sua forma mineral. Elas passam por processos complexos de concentração, separação química, purificação e transformação industrial até se tornarem insumos para a fabricação de ímãs permanentes, motores elétricos, equipamentos eletrônicos e componentes de alta tecnologia.
É justamente nessas etapas que está uma parcela importante do valor econômico.
Quando o Brasil exporta o concentrado mineral e outros países realizam o processamento, a separação e a fabricação dos componentes, parte significativa das oportunidades de negócios deixa de ser aproveitada pela indústria nacional.
Entre as perdas potenciais estão:
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Empregos qualificados: o país deixa de desenvolver, na mesma proporção, postos de trabalho especializados em química, engenharia, metalurgia, tecnologia e pesquisa.
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Arrecadação e atividade econômica: o Brasil deixa de capturar parte da renda gerada pelas etapas industriais posteriores, embora continue recebendo tributos e compensações incidentes sobre a atividade mineral.
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Desenvolvimento tecnológico: universidades, centros de pesquisa e empresas nacionais perdem oportunidades de desenvolver processos industriais e patentes.
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Dependência externa: o país pode precisar importar produtos de maior valor agregado fabricados com minerais extraídos de seu próprio território.
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Perda de competitividade: empresas brasileiras deixam de ocupar posições em mercados internacionais de componentes para veículos elétricos, energia renovável e equipamentos eletrônicos.
O risco é repetir um modelo histórico de exportação de recursos naturais com baixo processamento, enquanto outras economias concentram as etapas mais sofisticadas e rentáveis da cadeia produtiva.
Os números mostram o tamanho do desafio
Dados divulgados pela Agência Nacional de Mineração (ANM), em outubro de 2026, ajudam a dimensionar a situação.
Em 2025, o Brasil produziu 326 toneladas de terras raras na forma de concentrado de óxidos. No mesmo período, exportou US$ 14,9 milhões em concentrados e importou US$ 30,6 milhões em produtos da indústria de transformação mineral, incluindo óxidos de terras raras e ímãs.
| Valor | |
|---|---|
| Exportações | US$ 14,9 milhões |
| Importações | US$ 30,6 milhões |
Os números evidenciam um desequilíbrio: o país exporta concentrados e importa produtos que já passaram por etapas industriais mais avançadas. Isso não significa que os US$ 15,7 milhões de diferença representem, isoladamente, a perda econômica total, mas mostra a oportunidade de ampliar a participação brasileira na transformação mineral.
O desafio é ainda maior porque o processamento de terras raras exige tecnologia específica, investimentos elevados, mão de obra qualificada e domínio de processos químicos complexos. Não basta retirar o minério do solo para que o Brasil passe a dominar esse mercado.
Nova legislação tenta mudar o cenário, mas resultado dependerá da fiscalização
Diante das críticas e da crescente disputa internacional pelos minerais estratégicos, o governo federal sancionou, em 16 de setembro de 2026, a Lei nº 15.506, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
A legislação representa uma mudança importante na forma como o país pretende administrar suas riquezas minerais. Entre os principais instrumentos estão:
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Criação do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), vinculado à Presidência da República.
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Ampliação dos mecanismos de fiscalização e rastreabilidade da origem e da circulação dos minerais.
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Estímulo ao beneficiamento, à transformação e à industrialização em território nacional.
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Incentivos fiscais para empresas que investirem em processamento e transformação mineral no Brasil.
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Criação de um fundo garantidor que poderá receber até R$ 2 bilhões em recursos da União.
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Mecanismos de análise e homologação de determinadas reorganizações empresariais e mudanças de controle societário envolvendo ativos minerais estratégicos.
A nova política também prevê até R$ 1 bilhão anual em créditos fiscais entre 2030 e 2034 para estimular atividades de beneficiamento e transformação mineral, conforme as condições legais.
A legislação, entretanto, não determina que toda exportação de terras raras seja proibida nem estabelece que todas as etapas industriais devam obrigatoriamente ser realizadas por empresas brasileiras. Sua efetividade dependerá da regulamentação, da atuação dos órgãos responsáveis e da capacidade do Estado de fazer cumprir as exigências previstas.
A sanção da lei também não apaga as decisões empresariais e negociações anteriores.
O desafio brasileiro: transformar riqueza mineral em desenvolvimento nacional
O Brasil tem uma oportunidade histórica de ocupar uma posição relevante na economia mundial das próximas décadas. A transição energética, a expansão dos veículos elétricos, o desenvolvimento da inteligência artificial, a indústria de semicondutores e a modernização dos sistemas de defesa aumentam a importância das terras raras.
Entretanto, possuir reservas naturais não significa necessariamente possuir poder econômico.
A China, principal potência mundial nesse mercado, construiu ao longo de décadas uma estrutura industrial que envolve mineração, separação, refino, fabricação de ímãs e produção de componentes tecnológicos. É justamente esse domínio da cadeia produtiva que proporciona vantagens econômicas e estratégicas.
O Brasil, por sua vez, precisa decidir se pretende participar desse mercado apenas como fornecedor de recursos minerais ou se deseja desenvolver uma indústria capaz de transformar suas riquezas em produtos de alto valor agregado.
A questão central não é impedir investimentos estrangeiros, mas estabelecer condições para que esses investimentos também contribuam para o desenvolvimento brasileiro.
Isso envolve transferência de tecnologia, formação profissional, instalação de unidades industriais, geração de empregos, proteção ambiental, respeito às comunidades locais e retorno econômico para a sociedade.
Sem planejamento e fiscalização, o país corre o risco de repetir um modelo no qual a riqueza natural é extraída em território nacional, mas os maiores benefícios tecnológicos e industriais são conquistados em outras economias.
A pergunta que fica é: se o Brasil possui algumas das maiores reservas de terras raras do planeta, por que não deveria também disputar o protagonismo na fabricação dos produtos que dependem desses minerais?
O futuro dessa riqueza dependerá das decisões tomadas agora. Afinal, não basta ser dono de um dos maiores patrimônios minerais do mundo. É preciso ter capacidade de transformá-lo em desenvolvimento, tecnologia, empregos e soberania econômica.
Fontes utilizadas na apuração
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Repórter Brasil / Associated Press — Investigação sobre a presença de mineradoras estrangeiras nos projetos de terras raras brasileiros.
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CNN Brasil — Governo descarta intervenção na venda da Serra Verde.
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CNN Brasil — Discussão sobre taxação ou restrição à exportação de terras raras brutas.
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Agência Nacional de Mineração — Dados sobre produção, exportação e importação de terras raras. Consulte os dados oficiais .
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Agência Brasil — Debate sobre a competência federal e a negociação envolvendo a Serra Verde.
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Governo Federal / MDIC — Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Consulte a publicação oficial .
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Câmara dos Deputados — Texto da Lei nº 15.506/2026. Consulte a legislação
